Naomh Pádraig

Tudo começou em um dia de São Patrício. Meio a um porre colossal, Godofredo começara a balbuciar incongruências ininteligíveis, certamente derivadas do consumo de exatamente 574 mililitros de álcool etílico, espalhados de forma irregular por diversas garrafas de cerveja e inúmeras doses de whisky. Seus amigos – Arnaldo, consumidor orgulhoso de 485 mililitros e Estêvão, puxando a frente com 693 mililitros – imbuídos pelo espírito católico irlandês do dia 17 de Março, data na qual é venerado o santo Naomh Pádraig pelo simples fato de nela ter morrido, convenceram Godofredo de que não eram apenas resmungos de bêbado, e sim uma dialeto obscuro do irlandês arcáico falado apenas pelo santo. Godofredo acreditou em seus dois supostos amigos e passou a ter certeza de ser a reencarnação do santo e que sua missão seria destruir toda a delicada mitologia proposta pela igreja católica com sua teia de mentiras e ganância, trazendo uma nova era de paz e espiritualidade, coisas que raramente andam juntas.

Ironicamente, Godofredo ignorava (como ignoraria pelo resto de suas poucas horas no planeta) ser descendente direto do Papa São Gregório VII, seguindo a linhagem de um filho bastardo jamais visto pelo pai, que certamente reviraria na cova ao saber que um de seus descendentes andara pregando reencarnação. No caso quem reviraria seria o papa, já que o filho fôra apenas um camponês insignificante desprovido da capacidade analítica necessária para compreender a gravidade da existência de tal fenômeno para os pilares da fé católica.

Mais pertinente seria notar que Godofredo também ignorava seu transtorno dissociativo de identidade latente, que só agora aflorara em toda sua resplandescente glória.

Subitamente transformado em santo, Godofredo ergueu-se glorioso da cadeira, para espanto de Arnaldo e Estêvão, subiu desajeitadamente no tampo de fórmica que imitava madeira da mesa e começou um discurso colossal, estrondoso, que faria as bases de toda a sociedade desabarem e daria início a uma Nova Era da Humanidade, uma era de compreensão e fraternidade em que o amor prevaleceria e a solidariedade dimensionar-se-ia como a grande moeda de troca da espécie humana. Ditadores cruéis e terríveis cairiam, injustos se arrependeriam e dedicariam suas vidas ao bem, o poder escorreria das mãos dos poucos nas quais esteve concentrado durante quase toda a história humana e desapareceria para sempre para permitir a igualdade; todos seriam livres, felizes e contentes para todo o sempre, sem precisarem de dor, sofrimento e agonia. Um discurso para salvar a humanidade, iluminar as trevas e trazer ordem ao caos.

Infelizmente, Godofredo estava convencido ser um santo irlandês, e todo o discurso de quase duas horas foi feito em grunhidos e resmungos que o jovem herege presumia serem irlandês arcáico. Arnaldo e Estêvão, temendo a intervenção violenta de alguns freqüentadores menos iluminados do bar haviam desaparecido, e a única coisa que ruiu por terra graças à grandiloqüência de Godofredo foi a mesa sobre a qual discursava, partindo-se em três pedaços e lançando o santo destronado ao chão, onde bateu a cabeça e morreu em segundos, nunca descobrindo que não existe reencarnação, não existe paraíso e não existe Deus, apenas um chão de linóleo e uma escuridão eterna.

O garçom que tentou socorrê-lo, ao ver que não havia nada a se fazer, roubou sua carteira, provando de uma vez por todas que não tem jeito mesmo e que estamos todos fudidos por toda a eternidade, boa noite.

10 comentários:

Anônimo disse...

Nada como essas palavras do mais puro alento, antes de dormir.
Boa noite.

Anônimo disse...

É assim, bilhões e bilhões nascem e morrem neste planeta, uns mais iludidos que os outros.
Godofredo, Godofredo...um a mais, um a menos...

Fritelix disse...

ahahahahaha...
Colé Matías!?
Dramático e engraçado.
Só um detalhe, eu sei que é ficção, mas Deus existe sim! Converso sempre com Ele!! hahahahahahahahaha...
abç

filipe disse...

putz. you never cease to amaze me, mon freire.

Guik disse...

fino... um texto com misterio religião, sexo e monarquia... vc conhece a piada, né

Matatas disse...

Porra, Fidelis, vai ser do contra assim lá na PQP! Até com ficção, pô? rsrsrsr...

Manuel Rolim disse...

O mais engraçado é o anúncio Google "Deus Ama Você". Deus, como o grande marketeiro que sempre foi, anunciou no lugar certo. Afinal, neste blog deve estar o menor share dele.

Melian disse...

Pô, sacanagem falar que eu não existo... Eu existo sim, só não to nem fritando pra humanidade...

kkk

O Namoro Evangélico também foi engraçado (anúncio do Google), sempre me divirto com eles.

Bom o texto, Matias!

Anônimo disse...

Vocês não viram o melhor anúncio:

Ingles Espírito Santo

Essa associação guglótica por palavra chave está tão esquizofrência quanto o protagonista do conto.

lulu disse...

hi hi hi muito legal coincidentemente estou lendo um livro anti-religião... geralmente prefiro livros religiosos!!! Bom para mudar :-)