A Saga do Viking de Cabelo Encaracolado

A cultura pop tenta nos convencer da sensualidade charmosa dos extremos e de que o segredo da felicidade é viver cada dia como se fosse o último, endeusando a idéia de uma vida repleta de excessos sem conseqüências. A imagem clássica do herói junkie acordando, acendendo um cigarro e matando a meia garrafa de cerveja que sobrou ao lado da cama é provocativamente charmosa. Ainda mais considerando que estamos protegidos dos aromas e dos vexames públicos típicos de alguém que acorda acendendo um cigarro e matando a meia garrafa de cerveja que sobrou ao lado da cama.

Ao mesmo tempo retrata ícones que se dizem virgens e abstinentes de drogas e álcool como heróis das tentações do mundo, glorificando-os para as massas menos ousadas e mais ligadas a valores tradicionais. Beatificam a imagem de pessoas que acreditam em Deus e amam a família, transformando mais um extremo em algo também atraente e inatingível, já que estamos protegidos da chatice e do tédio de conviver com uma beata insuportável.

Como se não fosse o suficiente, somos bombardeados com reality shows que elevam à estratosfera da fama pessoas absolutamente comuns e medianas, nem animais selvagens sedentos por prazer sem escrúpulos ou restrição nem criaturas travadas e presas em moldes sociais tão fortes que não reconheceriam diversão se fossem enrabadas por ela com uma dildo preto de borracha.

Qual a lição? É tudo mentira. Tudo que é vomitado pelas redes de televisão, pelas gravadoras e pelos estúdios é uma pilha de merda quente pasteurizada corporativa, orientada para convencer um certo público a comprar uma certa porcaria qualquer, de vodka a laptops, de bíblias a cremes de celulite, o milagre da propaganda. Como diz o grande George Carlin, "advertising is the businessman's cheaply-dressed, five dollar blowjob".

Isso tudo é atingido nos mostrando como deveríamos ser, explorando nossas fraquezas. Somos todos claramente falhos e inadequados, pecando sempre por excessos ou faltas de características. As pessoas são altas, baixas, gordas, magras, têm cabelos lisos ou ondulados, olhos claros ou escuros, pele branca, amarela, preta, vermelha ou azul (essa eu inventei), mas sempre estão unidas por um denominador comum, que é a falta. Temos buracos enormes a serem preenchidos por sexo, comida, drogas, religião, academia, plática ou consumo. Nossos excessos mascaram nossa insatisfação e nossa inadequação perante a vida.

Mas não precisamos de extremos para nos sentirmos bem. Viver eternamente frustrado não é interessante, mas pular fora de todo o grande freak show da sociedade contemporânea não é a solução. Nada mais desagradável que alguém que realmente não precisa da aprovação alheia, já que pessoas assim não se preocupam com nada, inclusive higiene pessoal e bons modos à mesa.

Ser você mesmo, então, é inconcebível. Você provavelmente não é uma pessoa tão interessante assim, já pensou nisso? A chave é buscar o que é possível. É ser você, só que do jeito que você deveria ser.

Dizem que o grande desespero de todo cabelereiro é quando entra uma mulher com cabelo liso e preto segurando alguma revista de moda aberta numa foto de uma loira cacheada. Imagine se fôssemos sem pudor em todas as situações de alteração pessoal? Consigo ver o suor frio na testa de um cirurgião plástico vendo a Preta Gil entrar no consultório com uma foto da Naomi Campbell, ou de um Personal Trainer vendo, bem, a Preta Gil entrar na academia com uma foto da Naomi Campbell.

Um homem magrelo baixinho nunca vai parecer com o Sawyer do Lost, e um grandalhão gordão nunca vai parecer com aquele menino do Juno, assim como ninguém nunca vai parecer com o Brad Pitt nem com a Angelina Jolie nem com toda aquele mar de caipiras do Kansas que mudaram para Los Angeles e transaram com as pessoas certas e agora são referência de alguma coisa. E, claro, a Preta Gil nunca vai parecer com a Naomi Campbell.

Mas um cara com 1,80 meio gorducho pode virar um viking, gordo e forte, igual ao Paul Sr. do American Chopper. Já viu o braço do cara? Parece uma coxa pendurada no ombro. Vamos parar de idealizar pessoinhas do Kentucky que sabem fingir durante duas horas que são soldados ou advogados ou uma jovem apaixonada ou um capitão de nave espacial. Escolha alguém quase parecido com você. Vamos escolher role models viáveis, e sermos felizes sendo (quase) nós mesmos.

9 comentários:

Fritelix disse...

É Matias...
desde que Deus arrancou uma costela de Adão e depois expulsou o casal do paraíso, a falta tem sido uma constante em nossas vidas. Lamento que até hj a sociedade de consumo ainda não tenha conseguido todos os recursos do paraíso. Ai me pergunto!? Se falta tanto, será que já havia internet no Eden? abç

Anônimo disse...

É isso, escolher o que se pode ser e ficar satisfeito! "Satisfaction is the soul giving a sigh of relief..."

SaintCahier disse...

Menino, isso é que eu disse no gay-geeks.net outro dia: não adianta ficar se lamentando ou filosofando sobre o que há de errado no mundo gay (mas se aplica, guardadas as proporções ao mundo hetero também) --- mude você mesmo, mude seu círculo, negocie com seus gostos, ajuste suas possibilidades, mas encontre um nicho ecológico que te favoreça!

(E viva o nicho geek-bear!)

Cacá Zech disse...

Interessante...
Realmente é algo que sempre me questiono...até onde a autencidade é viável e possível..
;)

walisson Menezes disse...

Realmente muito bom Matias. Eu havia lido seu texto sobre os três d's eu adorei, agora quando entrei em seu blog não me decepcionei nem um pouco. Ei, dá uma olhada no meu blog se você puder. Eu também escrevo poesias , contos e as vezes crônicas: walissonmenezes.blogspot.com
Se você gostar , deixe um comentario. Um abraço!
Wálisson

Vi disse...

Claro e objetivo. Como 99% das coisas devem ser.

Renata disse...

vc me inspira e diz o que penso com as palavras que eu usaria ou quase.

lulu disse...

Acho que algumas pessoas na Índia são realmente (quase) azuis.

"parece uma coxa pendurada no ombro" é uma excelente frase.

Daniel Poeira disse...

Podia ter um site onde você entrasse com umas características e ele te dissesse quem você pode parecer. Eu tenho uma história comprida sobre o dia em que eu virei o Jackson Pollock, depois eu conto.

Quanto às pessoas que não precisam da aprovação de ninguém e saem fora do esquema, se algum dia eu estiver fedendo você por favor me avise. Eu sempre ando com um Lisoform spray no bolso.

Eu acho que o Jackson Pollock também andava.