Outrora

A vida, como regra geral, é muito entediante. Boa parte dos segundos, minutos e horas que preenchem cada dia é gasta desejando que os segundos, minutos e horas passem logo, para termos mais um dia. Por quê? Por que somos burros.

A vida é uma puta cara, e os segundos são infinitos pequenos cafetões, nos surrando por não podermos pagar. Já que é inevitável ficar velho e morrer, que tal um pouco de diversão antes do mergulho gelado da morte? Não é difícil ver quem entende. Velhinhos que dirigem rápido entendem, os que dirigem devagar, não. Se você tem setenta anos de idade, é bom chegar aonde está indo RÁPIDO, porque não estamos falando de alguém que pode planejar os próximos dez anos. Digamos que, depois de uma certa idade, a única garantia de pedir comida e estar vivo quando ela chegar é no McDonald's.

Mas uma boa parcela dos bilhões de bípedes que saltitam pela terra afora não vive pelo momento, e sim pela lembrança de momentos. São bombas-relógio de casos longos e chatos, prontas para entediarem qualquer um que caia na reta. Saudosismo é o último peido póstumo de um corpo que esqueceu de viver, e seus praticantes só perdem para Testemunhas de Jeová e Mórmons na lista dos grupos mais irritantes do planeta. Do PLANETA! Nada mal, para um aglomerado desorganizado de idiotas confusos e iludidos, não?

Agora, não pense que qualquer um pode ser saudosista; antes fosse tão fácil. Exige disciplina, desprendimento e falta de bom senso, igual pintar aqueles quadros de cavalo. É algo que não se aprende da noite pro dia; possivelmente da noite, pro dia, pra noite de novo.

É necessário destituir tudo que é atual de qualquer valor para glorificar um passado tão idiota quanto o presente. Isso nos obriga a engrandecer trivialidades e mistificar tolices. Nos obriga a lembrar de saídas frustrantes que só nos deram ressacas horrendas como grandes aventuras urbanas, e shows horríveis de bandas incompetentes como momentos pivotais na história da música.

Todos já passaram pela experiência horrenda de sentar à mesa com algum grupo de ex-amigos de colégio ou faculdade ou exército ou clube de swing ou seja lá qual for o grupo mais unido ao qual você já pertenceu. Ao invés de saírem e fazerem coisas e fabricarem novas memórias emocionantes e divertidas, as pessoas se agarram a versões engrandecidas de trivialidades passadas e ficam nessa, repetitivos igual almoço de natal de casa de vó.

Alguém começa a comentar sobre aspectos da personalidade de alguém durante a época em foco no momento, os Bons Tempos, digamos. Isso emenda num “Lembra aquela vez que”, que destrói qualquer chance de alguma conversa interessante e divertida, e transforma a noite num reviver de algum momento que provavelmente nem valeu a pena experimentar da primeira vez.

Impossível de participar; por mais que vasculhe minha memória, o único caso que me ocorre nestes momentos é a história de quando um peido meu esvaziou a sala na oitava série. Que nem lembro se é verdade, mas parece plausível.

Será que não há solução? Será que saudosistas são iguais a cristãos, absolutamente irrecuperáveis? Talvez. Mas não há necessidade de se sujeitar a uma sessão de tortura lembraquelavez. Experimente um teste simples, como perguntar sobre a vida atual das pessoas. Se não há nada emocionante para contar, talvez não exista mais nenhuma razão para se encontrarem. O que você quer com seus colegas de colégio, afinal de contas? Quer REALMENTE saber que o filho de um deles aprendeu a bater palminhas, ou ouvir um advogado contar piadas sobre o desembargador fulano que tem língua presa?

Ou prefere sair de perto, viver e não olhar pra trás? Lembre-se, qualquer pessoa que você vê tão pouco que precisa te contar casos do passado por falta de afinidade no presente é alguém que você só mantém como amigo se quiser estar por perto quando o casamento dele acabar e a ex-mulher estiver disponível.

E se você achou este final fraco, desculpe. Meus textos bons mesmo são os de alguns anos atrás; naquela época eu realmente escrevia bem. Ah, bons tempos.

9 comentários:

saintcahier.livejournal.com disse...

Queísso, Matatinhas. Recordar é viver...

(É por isso que eu tenho aquele programa de ópera de 1995 e aquela entrada de cinema -- apagada, impressão térmica não tem durabilidade arquivística -- de 2001).

Jacques disse...

Adorei a definição de saudosismo! Agora temos uma carta magna do terror do matias ao saudosismo! Todavia, cá pra nós, explicar o saudosismo, é, no seu caso, em si, saudosismo... Lembra, desdes os tempos do...

guilherme disse...

O que o huck tem à ver com isto?

Manuel Rolim disse...

Lembra daquela vez que nos encontramos por acaso no Bar do Gibi?
Falei isso só pra contar que depois a Tiazinha apareceu por lá.

Anônimo disse...

O Matias explica tudo tão bem...agora entendo porque é tão deprimente encontrar alguns colegas de anos atrás...é uma bosta mesmo!

Daniel Poeira disse...

O único motivo porque eu compro uma agenda todo inicio de ano é por causa dos mapas que vêm dentro.

saintcahier.livejournal.com disse...

Anos atrás é pleonasmo... Ânus atrás também.

robson santos disse...

A vida ficou ainda mais entediante depois do texto.

Marcio Henrique disse...

HAHAHAHAHA...
Eu estava lá!!!
Na oitava série e como eu estava longe do Matias na hora do alvoroço, fiquei meio sem entender nada por uns segundos... Imaginem a cena, as meninas com cara de nojo, quase vomitando saindo correndo sem nem dar a mínima pro professor, os meninos chingando, mando o Matias à puta que pariu ... HAHAHAHA... e foram os bons tempos... o Matias esvaziou a sala da oitava série do CSA... HAHAHA, cara, você me mata de rir...