Cândida

– Pra onde vamos, chefia?
– Getúlio Vargas com Alagoas.

Abro o jornal e finjo ler alguma matéria sobre os novos avanços da NASA na tentativa de criar um habitat viável para colonização da lua e, futuramente, planetas (não está indo bem, dá pra ver pelas entrelinhas da matéria), tudo para evitar conversa.

Momento de foco e concentração, preparando para o encontro final com Cândida. Semanas de preparação, cuidado extremo. Tudo para ganhar confiança e me aproximar.

– Você viu o jogo ontem? Porra, que pelada, hein?

Nem escuto o imbecil dirigindo o táxi. Estou preocupado. Não me preparei adequadamente. A certeza inabalável me assola. Começo a sentir aquele calafrio estranho, um gelado na barriga e arrepio na nuca. Fecho os olhos e respiro, tentando controlar o pânico.

Sinto o suor brotando na testa, todos meus músculos travando. Sei que o motorista está me olhando pelo retrovisor. Pelo menos agora acho que não vai tentar puxar papo.

Minha última chance hoje. Após semanas, tentando entender todos os códigos e tirar tudo que poderia de Cândida, chegou o momento inevitável, e preciso me controlar.

Minha mão esquerda desliza até a sacola ao meu lado no banco de trás. Escorrego os dedos para dentro. Cada objeto identificado me acalma um pouco, a respiração volta ao normal, depois de alguns minutos abro os olhos e sorrio.

– Tá tudo bem aí, cara?

Continuo sorrindo e ignorando. Chegamos, pago o dobro que devo e desço.

O prédio conhecido, abro o portão com minha chave. Cândida mora no 301, subo de escadas e paro no corredor. Preciso ser rápido, nenhum vizinho pode passar enquanto me preparo. Em segundos, pesco um par de luvas de látex no bolso do paletó, visto, abro a sacola e visto a capa de chuva que estava lá dentro, visto os óculos de proteção presos com um elástico branco por trás da minha cabeça. Abro a porta do apartamento. Finalmente chegou a hora.

Adiar prazer? Expectativa aumenta a emoção de conseguir algo? Sofra agora, deleite-se mais tarde? Parece muito cristão. Penitência é para idiotas. Fodam-se os sete pecados e o paraíso depois, quero prazer constante. Quero sobremesa antes e depois do jantar.

Com Cândida não foi assim. Semanas de preparação, estudando seus hábitos, me preparando para o momento apoteótico que se aproximava, finalmente.

Fecho a porta, silencioso, vejo Cândida parada no centro da sala, de costas para mim, observando algo que segura nas mãos e que não vejo. Avanço lentamente, medindo cada passo. O tempo pára. Estou a cinco passos dela. Quatro. Três. Dois.

– DEITA! – berra Cândida, virando rapidamente, me batendo na cara com a cinta que examinava – JUNTO, maldito escravo imprestável! Matou o homem da foto?

Caio de joelhos, o sangue escorre nariz abaixo, resultado da primeira cintada. Abano a cabeça em afirmação.

– Bom escravo! De prêmio, vai lamber minhas botas, seu porco imundo!

Cândida termina de me jogar no chão, sempre batendo, batendo, pquenas gotas de sangue caindo do meu nariz na capa de chuva de plástico transparente, eu me ajoelhando e lambendo suas botas de couro, pretas e novas, sentindo lágrimas de felicidade brotando dos meus olhos e a sensação de finalmente conseguir o prazer que tanto queria me preenchendo por todo.

9 comentários:

Anônimo disse...

Puxa, cara, então tinha uma seqüência! Vai virar um livro. Só não vi o primeiro episódio. Onde está?

Anônimo disse...

"Primeiro episódio"? Pfff... Que coisa mais pré-estruturalista... ;-)

Matatas disse...

O texto anterior (nada de primeiro episódio, saintcahier, não se preocupe) tá AQUI

filipe disse...

who knew you had a masochistic streak, matas? i always thought you were just a sadist.

Manuel Rolim disse...

Cândida não é o nome de uma DST?

Melian disse...

é um nome de mulher
e de um fungo

Anônimo disse...

ô cadernosanto, vai ver se eu tô na esquina, porra.

Anônimo disse...

ou é santocaderno?

Anônimo disse...

Ah e enfia o seu Pfff fresco naquele lugar...