In nomine Patris et Filii et Spiritus Sancti

03:57 no despertador, acordo gritando. Dez anos matando gente e todo dia acordo gritando. Vejo cada rosto que já matei. Só tenho paz quando encontro com Cândida, e apanho.

Maldita criação católica. Só aplaco a culpa com penitência. Sangramento, hematomas, ocasionais fraturas, igual nos velhos tempos. O papa ficaria orgulhoso, velho louco. O pecado da luxúria, pequeno preço a pagar.

Mas há três dias não vejo Cândida. A capa de chuva e as luvas de látex esquecidas na valise, só me resta suar, gritar e dormir em pequenos intervalos entre os pesadelos. Preciso apanhar hoje, a exaustão está fora de controle.

Abro a porta do prédio e subo de escada até o terceiro andar. Minha mão segurando a valise está suada, cheia de más intenções. Será que o paraíso está repleto de más intenções, para contrapor ao inferno?

Não me dou ao trabalho das luvas nem da capa. Entro silenciosamente, não quero que Cândida me veja ainda. Quero assustá-la, assim apanho mais. Talvez até uma fratura, por acordá-la de madrugada. Uma fratura são duas semanas dormindo em paz.

A fresta da porta do quarto mostra luz. Estranho. Cândida não tem pesadelos, criada pagã. Inveja. Mais um pecado. Vou direto para o inferno.

Cândida conversa com alguém. Alguém homem. Escuto tudo, do outro lado da porta. Estão contentes, vão poder ficar juntos agora que o marido dela está morto. Assassinado no banheiro da empresa onde trabalha. Garganta cortada por um homem com capa de chuva.

Um homem que vai pro inferno. Ainda mais agora, depois voltar à cozinha do apartamento, pegar uma faca e passar mais de duas horas esquartejando os dois, nus, na cama. Trabalho até o sol raiar, fazendo uma piscina de sangue no chão do quarto. Manchando minha roupa, e minhas mãos. Minha roupa desprotegida, sem capa, e minhas mãos expostas, sem luvas, sujas de sangue. Lavo as mãos, mas o sangue mancha, não importa o quanto eu esfregue.

Saio do prédio, finalmente vestindo a capa de chuva para me proteger das gotas enormes caindo. Tenho esperança que me protegerá também do raio que, certamente, um dia me fulminará. Maldita chuva, maldito trabalho, maldito Deus, maldita Cândida.

6 comentários:

Anônimo disse...

Lavo as mãos, mas o sangue mancha, não importa o quanto eu esfregue.

"Yet who would have thought the old man to have had so much blood in him?"

Ah, Matias! Suas pérolas não estão sendo atiradas a porcos! ;-)

filipe disse...

ahhh... nice, matas. you took it in a nice direction. gostei mermo.

Anônimo disse...

Colé Matias!!!
Mate seus contos para o Jornal Aqui, vai sair na primeira página, com manchete!!!
haushuashaushaushauhsauhsaush

Abç.

Fidel

Manuel Rolim disse...

"Será que o paraíso está repleto de más intenções, para contrapor ao inferno?" Muito bom.

E o purgatório, tá cheio de quê?

Anônimo disse...

pq o supositorio é sempre maior que comprimido?

rafael disse...

guuuuló!