Hortifrutigranjeiros

Vivemos num país de conto de fadas. Não um lugar lindo com um rei justo e uma princesa esperando o amor verdadeiro, mas uma distopia vivendo à base de mitos idiotas e sonhos surreais. O sentimentalismo e a demagogia dominam o país, e o falso moralismo corrói a sociedade como um câncer. Como diz meu amigo SaintCahier, “[Povo] mais bunda que o brasileiro, eu desconheço.”

Em várias incidências vemos a bundice brasileira em ação: não fuzilar os integrantes do MST, não esfolar vivas ministras da economia que confiscam seu dinheiro, não linchar em praça pública os generais e torturadores da ditadura, levar a sério Big Brother. Mas em nenhum caso a manifestação do brasileiro bunda-mole é mais grave que nossa relação com hortifrutigranjeiros.

Sério? Sério. O sacolão define perfeitamente a essência do povo brasileiro enquanto consumidor e, como conseqüencia, cidadão. Se americanos nervosos ocasionalmente entram armados no McDonald’s e abrem fogo na galera, deveríamos fazer o mesmo em sacolões Brasil afora.

Temos diversos climas no país, propício ao cultivo de praticamente todo tipo de fruta e legume, e mesmo assim só temos merda no sacolão. Bons exemplos são frutas que saem ligeiramente do tropical, como pêssegos e maçãs e morangos e amoras, que são de qualidade lamentável na terra da manga e do abacaxi (talvez as únicas duas coisas que prestam no Brasil).

O que isso tem a ver com a personalidade coletiva do brasileiro? Mostra como aceitamos consumir qualquer merda que seja enfiada goela abaixo, qualquer maçã massuda ou pêssego duro. Não somos consumidores exigentes, isso é mais que claro. Aceitamos pagar o triplo que um americano paga numa televisão (mesmo sendo fabricada na China), e ainda agüentamos o gerente semi-analfabeto da Ricardo Eletro explicando como funciona a política de troca da loja e que ele não pode fazer nada quando a TV estraga. Somos consumidores fracos e estúpidos.

É muito fácil rir da mania dos europeus de pagarem 5 euros numa manga e comerem bananas verdes, que jogam fora assim que aparecem pequenas pintinhas pretas (ou seja, quase pronta para comer), mas eles exigem qualidade suprema em televisões, máquinas de lavar roupa e hortifrutigranjeiros. Nós somos idiotas, o que é comprovado pelo nosso comportamento em relação ao tomate.

O tomate é a quintessência da estupidez brasileira. Além de só termos dois tipos de tomate (aquele grandão sem gosto de nada e aquele pequeno com gosto de agrotóxico), compramos verde e jogamos fora maduro. É verdade, e você sabe disso. Não tente negar. É inadmissível um tomate manchado de verde chegar à mesa. Tomates são vermelhos, porra. Vermelhos, não verdes, não amarelados, e sim VERMELHOS.

Tomates não devem ser consumidos duros e verdes, devem ser consumidos firmes e vermelhos. Geralmente quando chegam ao ponto certo, são jogados fora, porque passaram do ponto. Passaram de onde, do ponto de quase maduros?

Como sempre, existe um lado positivo. A vantagem da estupidez tomatal do povo brasileiro é que nós, os seres humanos sensatos do Brasil, podemos comprar tomates maduros em qualquer sacolão, desde que cheguemos depois das idiotas que compram verde e antes dos funcionários que jogam fora maduro.

Respeitem o tomate. O tomate é nosso amigo, principalmente maduro.

8 comentários:

Anônimo disse...

Mas eu sempre defendi que o problema do Brasil é a bundice das elites, e não do povo --- já que disse e repito: povo é bunda em qualquer lugar. Eu por exemplo, que sempre soube dessa aberração na percepção tomática brasileira, fico torn entre esclarecer a populaça (atitude de elite generosa) e mantê-la na sua ignorância para continuar achando tomates maduros à vontade sempre que entro no sacolão (atitude de elite bunda).

Fritelix disse...

Nossa, fiquei confuso demais com tanta informação. Da parte que me chamou de bunda, lhe digo uma coisa: bunda é vc seu cocozinho filho da elite que gosta chamar o povo de bunda.
Sobre tomates, procure pesquisar mais. No mercado Central encontramos todos os dias 6 tipos de tomates. Nas barracas são classificados pelo tipo e ponto de maturação. Os mais maduros são selecionados e tem preço diferenciado, com a plaquinha: "especial para molho". O melhor para o meu gosto é o pelatti, no ponto mais maduro. Ainda são encontrados os seguintes tipos de tomate: Santa Cruz, Salete, Coração de Boi, Cereja e Caqui.
Procure variar de sacolão.
abç.
Fidel

Anônimo disse...

E o Matias sabe aonde fica o Mercado Central?

Anônimo disse...

Matias, que dia vai sair a coletânea dos seus textos? Com direito a lançamento no Café com Letras! Hehehe

Anônimo disse...

Não dá para pegar as extrema e considerar que são representativas, Fritelix.

A mediana é podre, e a média deprimente. A sorte é que o desvio padrão é tão grande, que dá para a gente se salvar na pontinha de cima da distribuição.

E outra coisa --- eu não gosto de chamar o povo de bunda. É que dizer a verdade é uma espécie de obrigação desagradável, pelo menos no meio de uma discussão puramente intelectual.

P.S.: Está querendo se implicar que o Mercado Central é popular? Vocês já repararam o preço das coisas lá? Aquilo é o quartel general dos bobos (bourgeois-bohèmes, para os não iniciados) desta cidade.

Giancarlo Ranieri disse...

Muito bom o texto, divertido, porem triste, que e' a nossa realidade latinoamericana, especialmente a do Brasil.

Abracos...

Melian disse...

Triste é quando aparecem umas pessoas que acham que não são bundas mas na verdade são...

E dá-lhe comer tomate podre (servidos por essas pseudonãobundas...)

Anônimo disse...

zehr gut!

andrewakko